Início > Pintura e Escultura > MovimentArt> "Gorilas" feministas invadem MASP e convidam a discutir o machismo na arte

  • Facebook Social Icon
  • Twitter Social Icon
  • YouTube Social  Icon
  • Instagram Social Icon

“Gorilas” feministas invadem MASP e convidam a discutir o machismo na arte

Instituições culturais de SP estão distantes do considerado igualdade entre os gêneros na arte

Por Claudio Junior - Garoa News
03/11/2017 14:30  

A Guerrilla Girls que chegou em 28 de setembro ao

mezanino do subsolo do Museu de Arte de São Paulo, o

MASP, na Avenida Paulista, e ficará por lá até a quarta-feira

de cinzas, em fevereiro do próximo ano, intensificou seu

ativismo quando colocou uma máscara de gorila em A Grande Odalisca, do pintor francês Jean-Auguste Dominiques Ingres, e transformou aquela mulher nua, branca e que segura uma espécie de espanador em sua mão direita, em um grande pôster com números sobre a rarefeita participação de artistas mulheres no acervo em contrapeso ao alto número de mulheres nuas expostas em um dos maiores museus do mundo, o Metropolitan Museum, em Nova Iorque. A mulher nua de Ingres, atualizada pela Guerrilla com a máscara de gorila rosnando, fez borbulhar o campo das artes visuais ainda em 1989.

Andar em bando como os primatas poderia, em parte, justificar o uso de máscaras e a figura de gorilas por mulheres, integrantes de um coletivo feminista, que desde meados da década de 1980 viajam o planeta para visitar galerias de arte e museus, para expor, não seu trabalho, mas a ausência de obras e a pequena, quase nula, participação de artistas mulheres em acervos e exposições de grandes instituições de arte no mundo.

Guerrilla Girls Gráfica, 1985-2017; Foto: Claudio Jr.

De lá para cá, elas, mulheres que recusam dizer seus nomes e mostrar os rostos, e que abusam de pseudônimos e máscaras de primatas, promovem campanhas publicitárias nos mais diversos lugares e idiomas, e chegam agora para a mostra Guerrilla Girls Gráfica, 1985-2017 em parceria com o MASP, naquela que é a primeira visita do grupo ao Brasil.

Reprodução do pôster "As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo?"; Foto: Claudio Jr.

Além da reunião de trinta e dois anos de trabalhos, a garotas da Guerrilla promoveram uma versão de A Grande Odalisca, também com máscara de gorila, com números de artistas mulheres no acervo do MASP e o percentual de mulheres nuas expostas nas mostras do museu. Em português, o pôster mostra que o acervo do MASP não difere muito de outros museus do mundo. A nossa Odalisca mascarada diz que “apenas 6% das artistas do acervo [do MASP] em exposição são mulheres, mas 60% dos nus são femininos.”

Tratamos a presença da Guerrilla como convite (talvez convocação) para discutir o tema. Por isso, fomos além do MASP e apuramos, em quatro grandes instituições culturais de São Paulo, a presença de artistas mulheres em exposições de artes visuais durante este ano. Estivemos no MASP, Centro Cultural Banco do Brasil, Museu de Arte Contemporânea e Museu de Arte Moderna para entender como tem sido a programação destas instituições em expor obras individualizadas de artistas mulheres.

Com informações da seção programação e assessoria de imprensa das instituições, levantamos números que ainda estão distantes do considerado igualdade e equidade entre os gêneros na arte. Nosso levantamento mostrou que as quatro instituições somam quarenta e cinco mostras, entre já encerradas e em exposição, desde janeiro deste ano.

Desse número, dezesseis estão em exposição, sendo apenas duas dedicadas a trabalhos individualizados de artistas mulheres, incluindo a mostra Guerrilla do MASP.  A segunda mostra é Amelia Toledo: Lembre Que Esqueci, no CCBB até 08/01 do próximo ano.

Contando ainda com informações da seção programação das quatro instituições, este ano soma sete mostras dedicadas a trabalhos individualizados de artistas mulheres, contra dezessete mostras promovidas pelas instituições com obras de artistas homens. Dessas dezessete mostras, três estão em exposição, sendo uma, Pedro Correia de Araújo: Erótica, em exposição no subsolo do MASP até 18/11, a poucos degraus da Guerrilla de nossas “gorilas”. Enquanto elas elaboram e expõem análises sobre a misoginia subjetiva no número de nus expostos pelos museus e galerias do mundo, Pedro Correia exagera em retratos e pinturas de mulheres negras nuas. Aliás, parte considerável dos retratados pelo pintor pernambucano estão nus.

Guerrilla Girls Gráfica, 1985-2017 vista pelos nus de Pedro Correia de Araujo: Erótica; Foto: Claudio Jr.

Guerrilla Girls discute aquilo em que Pedro Correia, pintor passeante entre os séculos passado e retrasado, e muitos outros artistas basearam suas vidas artísticas. O MASP, neste momento, abre espaço e seu acervo para admirar as retratações do passado e discutir o presente para que, no futuro, se admire um passado não tão desigual. O mesmo vale para as outras instituições culturais que não se negam em abrir suas portas para a discussão.

Entramos em contato com as instituições citadas e, até o fechamento desta reportagem, não obtivemos resposta.  

Guerrilla Girls Gráfica, 1985-2017 fica no MASP até 14/02/2018 e Pedro Correia de Araújo: Erótica, também no MASP, até 18/11.

No respeito ao espaço democrático da liberdade, inclusive a de expressão, com foco na importância da discussão, seja ela qual for, sou admirador da literatura brasileira, distopias estrangeiras e clássicos da categoria mais genuína de comunicação, a escrita. Aqui, escrevo sobre Artes, em suas mais variadas mostras, e seus valores transgressores em quebrar barreiras, às vezes, físicas e, sempre, cognitivas. Elas rompem a imposição que todos devem ser e pensar da mesma maneira. 

"Lá ficou Josias, na sua cova à beira da estrada, com uma cruz de dois paus amarrados, feita pelo pai."

O Quinze - de Rachel de Queiroz

Claudio Junior

    Gostou da leitura? Volte sempre que desejar, não esqueça de nos seguir nas redes sociais  

© 2017 por "Garoa News". Orgulhosamente criado com Wix.com