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Di Cavalcanti e a periferia da arte

Pina reúne “No Subúrbio da Modernidade – Di Cavalcanti 120 anos” mais de 200 obras de Di Cavalcanti até 22 de janeiro do próximo ano

Por Claudio Junior - Garoa News
15/11/2017 12:48 

Ainda não era século XX, aliás, faltava pouco para a chegada daquele que seria um dos mais violentos séculos de nossa história, por conta das grandes guerras e revoluções, quando Emiliano Di Cavalcanti, o Di, pintor modernista, nasceu em solo carioca. Em 1897, nasce. Em 1922, ao lado de outros grandes expoentes artísticos brasileiros, ele revoluciona com a Semana da Arte Moderna, e agora, em 2017, recebe da Pinacoteca de São Paulo a maior exposição de seus trabalhos desde o seu falecimento em 1976. Com direito a fitas douradas de senso crítico e azuladas assim como a cor do horizonte, a Pina reúne “No Subúrbio da Modernidade – Di Cavalcanti 120 anos” mais de 200 de suas obras, entre pinturas, desenhos e ilustrações, até 22 de janeiro do próximo ano no prédio vizinho ao parque da Luz, a Pina Luz, no centro de São Paulo.                                                 

Fachada da Pina Luz; Foto: Claudio Jr.

Reprodução de ""Amigos"  por Di Cavalcanti; Imagem: Divulgação / Pinacoteca do Estado de S. Paulo

Desde setembro, mês de aniversário do artista, a Pina dedica 7 salas de seu primeiro andar para o modernista que, ao lado de Tarsila do Amaral, Mario de Andrade e Anita Malfatti, colaborou intensamente na incorporação do foco de observância cultural e artística brasileira com o melhor do continente europeu e, de acordo com a curadoria de José Augusto Ribeiro, mostrou a periferia, o “subúrbio” propriamente dito, como espaço de prazer e descanso.

Em 1921, Di Cavalcanti sem muita clareza, pelas poucas cores aplicadas e a névoa sobre a tela, lança Amigos, última obra antes da Semana de Arte Moderna – fevereiro de 1922 -, marco da arte brasileira, a passagem para o que conhecemos como “Modernismo Brasileiro”. Com a Semana, portanto a chegada do modernismo, as telas ganham realce, cor e, consequentemente, vida. Já em 1930, ele não renega os corpos pesados e pouco sensuais, para os atuais padrões de beleza, de meretrizes para compor seu Bordel. Antes, em 1926,Di tinha dado a deixa de que com o modernismo ele retrataria mais os marginalizados - não diferente de hoje, majoritariamente composto por negros – com Mulheres na Janela, duas mulheres negras de bruços observando o movimento da rua, sob a técnica de óleo sobre cartão. O modernismo teria feito de Di o pintor das periferias. O primeiro a retratar sem medo a vida do suburbano.

Para José Augusto Ribeiro, responsável pela reunião das pouco mais de 200 obras expostas na Pina, Di Cavalcanti ao mesmo tempo em que chamava a atenção para a situação periférica do País, pelo atraso de suas técnicas artísticas, em relação ao mundo, que no século XX contemplava a modernidade da vida e arte europeia, o artista apresentava as também situações periféricas do Brasil. “Ao mesmo tempo, o título se refere aos lugares que o artista costumava figurar nas suas pinturas e desenhos: os bordeis, os bares, a zona portuária, o mangue, os morros cariocas, as rodas de samba e as festas populares - lugares e situações que, na obra do Di, são representados como espaços de prazer e descanso”, explica Ribeiro.

Reprodução de ""Bordel"  por Di Cavalcanti; Imagem: Divulgação / Pinacoteca do Estado de S. Paulo

Reprodução de ""Mulheres na Janela"  por Di Cavalcanti; Imagem: Divulgação / Pinacoteca do Estado de S. Paulo

Caminhar pela mostra, observando as paredes das 7 salas destinadas a Di na Pinacoteca, é atravessar história de um, também, militante. À esquerda no campo político, as pinturas, gravuras e ilustrações de Di pequenos são retratos de um atento observador da política nacional. Aspecto que para a curadoria não poderia ficar de fora da mostra por conta da intensa participação de Di na concepção do Partido Comunista do Brasil (PCB), ainda na década de 20, e como isso motivou suas intervenções por um modernismo brasileiro mais forte. “Esse engajamento reforça o desejo de transformar o movimento moderno em uma espécie de projeto nacional”, comentou Ribeiro, responsável pela maior mostra de trabalhos de Di Cavalcanti desde sua morte, em 1976.

Com entrada franca aos sábados, a mostra “No Subúrbio da Modernidade – Di Cavalcanti 120 anos” está na Pina Luz, em frente à estação da Luz e vizinha do Parque da Luz, no Centro, até 22 de janeiro do próximo ano.

Claudio Junior

No respeito ao espaço democrático da liberdade, inclusive a de expressão, com foco na importância da discussão, seja ela qual for, sou admirador da literatura brasileira, distopias estrangeiras e clássicos da categoria mais genuína de comunicação, a escrita. Aqui, escrevo sobre Artes, em suas mais variadas mostras, e seus valores transgressores em quebrar barreiras, às vezes, físicas e, sempre, cognitivas. Elas rompem a imposição que todos devem ser e pensar da mesma maneira. 

"Lá ficou Josias, na sua cova à beira da estrada, com uma cruz de dois paus amarrados, feita pelo pai."

O Quinze - de Rachel de Queiroz

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