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“Minha melhor amiguinha é a borracha”

Artista plástico vai de telas brancas a troncos e raízes para passar sua mensagem

Por Claudio Junior - Garoa News
12/11/2017 16:30  

Chegar atrapalhando e, por que não, assustando um artista plástico que meditava, felizmente, não causa irritação em pessoas diferenciadas que vivem de arte. Em um encontro, bate-papo de pouco mais de uma hora, em seu ateliê de artes, “Olhos do Mundo”, um cômodo com algumas janelas e recheado de obras, não só de pinturas, em cima da garagem de sua casa no distrito industrial de Terra Preta em Mairiporã, na Grande São Paulo, o artista plástico Antônio Sebastian Sá, avisa de antemão que a vida de artista, seguindo a vibe de “raiz” naquela comparação com o creme de avelã com chocolate – para não dizer a marca -, é um campo em que o ritmo de produção em série, a massificação das coisas ou “nutelarização das coisas”, não tem vez. 

Sebastian Sá ao lado de seu autorretrato em “decomposição geométrica"; Foto: Claudio Jr.

“Você não pode chegar aqui [no Ateliê] e ‘gostei daquele quadro. Faz um para mim. Você sabe fazer’. Não é assim. As pessoas não entendem. Então, muitas vezes, chega cliente aqui. Ela quer um determinado trabalho. Tenho que dar uma aula para ela, o porquê de tudo aquilo ali, para poder levar um trabalho. Levei 50 anos para aprender isso aí [pintar].Não é assim, sentar e chegar . Minha melhor amiguinha é a borracha. O lápis e a borracha”, comentou o artista que há mais de 50 anos ver arte em tudo.

Sebastian Sá – já que “Antônio é muito comum. Sebastian tem mais energia, mais força”, marca a arte com sua adaptação de cubismo que, curiosamente, pouco tem a ver com o movimento de Picasso, do início do século passado, quando as telas ganharam mais aspectos geométricos, os rostos ficaram mais claros, nítidos e simétricos. Sob as mãos de Sebastian, os pincéis também fazem às vezes de réguas na produção de quadros, de retratos a paisagens que surgem sobre formas coloridas de retângulos naquilo que ele definiu como “decomposição geométrica”, nome de seu movimento.

Formado em Belas Artes e edificações pelo Instituto Nobel de Tecnologia, Sá diz que a “decomposição geométrica” é a junção do dom de desenhar e pintar com o passado em edificações. “Trabalhei quase 30 anos como desenhista de edificações. E lá aprendi de tudo. Entrei menino, praticamente, antes do Exército. Foi onde aprendi e depois fui estudar. Aprendi com os colegas, amigos mais antigos.”

No autorretrato de 2006, Sebastian aparece em meio a retângulos bem delimitados. Já em Campeão, é a vez de um hipista sobressair aos retângulos. Ainda há criança nascendo em Nascimento e ideia de movimento no homônimo Movimento. Todos dentro da ideia de se transmitir uma mensagem. “Quando você senta para pintar, a obra passa a energia para você pelo trabalho. Tanto é que, encomenda é meio complicado. Você precisa entrar na cabeça do cliente para saber exatamente o que ele está pensando com relação o pedido dele, tanto desenho como na pintura. Tem um lado psicológico da coisa também, né? Você tem que compreender ela. Entender para executar. Porque, quando você leva um trabalho para casa, você tem que colocar na parede, sentar no sofá, olhar para ele e ele tem que passar alguma coisa para você. Energia. Sentimento. Você viaja. Ela fala muito mais”, comenta o artista que não priva sua base de matérias-primas a telas e pincéis.

“Campeão” de Sebastian Sá; Foto: Arquivo pessoal

Para ele, as telas podem trazer delimitações em seus muitos retângulos, como que várias pastilhas compondo suas inspirações e ideias, mas não delimitam a ele e sua versatilidade com qualquer outra coisa. Indiferente ao material usado na produção de uma ideia, Sá não se contém e, se preciso, agarra tronco, raiz, para promover experiências como enxergar um jacaré, no fundo de um rio, agarrando uma presa como alimento. O jacaré é uma realidade no ateliê de Sebastian. Com boca ensanguentada, lá está ele digladiando com seu alimento. 

Sebastian trabalha atualmente na produção de releituras de fotografias, sob a técnica de guache, de funcionários de uma empresa multinacional de cimentos. A empresa encomendou à Sá que converta retratos em pinturas para uma exposição com trabalhadores representantes dos países em que a empresa tem filial.

    Autorretrato de Sebastian Sá em “decomposição geométrica”; Foto: Claudio Jr.

O Ateliê de Artes Olhos do Mundo fica em Terra Preta, distrito industrial de Mairiporã, na Grande São Paulo.

O “jacaré” de Sebastian Sá talhado pela natureza; Foto: Claudio Jr.

No respeito ao espaço democrático da liberdade, inclusive a de expressão, com foco na importância da discussão, seja ela qual for, sou admirador da literatura brasileira, distopias estrangeiras e clássicos da categoria mais genuína de comunicação, a escrita. Aqui, escrevo sobre Artes, em suas mais variadas mostras, e seus valores transgressores em quebrar barreiras, às vezes, físicas e, sempre, cognitivas. Elas rompem a imposição que todos devem ser e pensar da mesma maneira. 

"Lá ficou Josias, na sua cova à beira da estrada, com uma cruz de dois paus amarrados, feita pelo pai."

O Quinze - de Rachel de Queiroz

Claudio Junior

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