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Refugiados são humanos como qualquer um de nós, então porque os queremos longe?

“Não me julgue antes de me conhecer”

É a frase tema da 2º edição do Projeto Copa do Mundo dos Refugiados, que leva para todo Brasil integração social por meio do esporte.

Por Valter Silva - Garoa News
26/12/2018 22:30  

Há muitos e muitos anos atrás, o Brasil era descoberto pelos portugueses, mais precisamente a partir de 1530, foi onde se deu início o processo migratório. Foi quando os índios nativos passaram a dividir espaço territorial, extremamente abundante naquele período, com portugueses e seus escravos.

Aqui em São Paulo, passamos a conviver com italianos, que assumiram postos no comércio e indústria que naquele período ainda engatinhava em nosso País.

Muitos estrangeiros foram ao interior paulistano, para trabalhar nas lavouras de café e receberam outro grupo de imigrantes, desta vez os japoneses. Em meados de 1908, fizeram parte do mais novo grupo de imigrantes trabalhando nas lavouras de café, mercado este que por muito  tempo foi a maior fonte de renda de nosso País.

Estádio do Pacaembu - foto: Jefferson Oliveira

Toda essa história está sendo contada com um propósito! A imigração não é um assunto recente na história da república das bananas. Em toda nossa história temos registros bastante consistentes sobre a imigração de povos em busca de condições mínimas de vida.

No início deste processo, lá no século XIX, o Brasil era visto como um país com abundância de oportunidades, principalmente aos olhos dos Europeus e japoneses. Eram pessoas com grandes problemas financeiros e econômicos, que em um ato de desespero, viram a galinha dos ovos de ouro brilhando e atravessaram o globo com grandes sonhos e chances de  prosperar no Brasil.

Outro detalhe importante, muitos dos imigrantes vieram ao nosso País, para fugir das zonas de guerra provocadas pelas duas Grandes Guerras Mundiais que ocorreram principalmente no continente europeu.

É importante ressaltar que, após a abolição da escravatura, ocorrida em 1888, muitos dos fazendeiros se opunham a empregar e pagar salários as pessoas que deixaram de ser escravos, dando preferência aos recém chegados imigrantes italianos, alemães e japoneses (só para citar alguns). E por incrível que pareça, neste período o governo brasileiro, gerido então pelo Marquês de Pombal durante o reinado de D. José I, criou campanhas para trazer imigrantes europeus para terras brasileiras, ao invés de fortalecer os laços com os ex-escravos recém libertados das amarras.

Bruno Covas e Jean Katumba - foto por Jefferson Oliveira

Em pleno 2018 essa realidade ainda é bastante contemporânea.

Em toda nossa história, convivemos com a situação da imigração e ela é de extrema importância, pois ninguém sai de seu país por achar ele chato, normalmente isso acontece por que o clima onde se vivia tornou-se insuportável a ponto de não se ter outra opção.

O projeto Copa do Mundo dos Refugiados, teve início em 2014, por iniciativa dos próprios refugiados e da ONG África do Coração, presidida por Jean Katumba, aproveitando a visibilidade proporcionada pela Copa do Mundo que foi realizada aqui no Brasil.

“O projeto tem três objetivos primordiais que são: Gerar

visibilidade para a causa do refúgio no Brasil por meio de uma pauta positiva; Colocar os refugiados num papel de protagonismo social e Tornar viáveis ações reais de inclusão social para refugiados”. Aponta Rodrigo Vicencio, diretor de marketing e comunicação da Copa.

É muito importante que empresas se solidarizem e auxiliem patrocinando os eventos. “Muitas empresas já foram parceiras apoiando com materiais e itens críticos para a realização do evento, como uniformes, alimentação e transporte. Netshoes e Sodexo são exemplos. Em 2018 a edição de POA teve patrocínio da marca de arroz Sunrice, que é comprometida com a causa do refúgio” afirma Vicencio.

Mas a causa não fica presa apenas ao esporte, a organização se preocupa também na inclusão dessas pessoas, auxiliando na colocação no mercado de trabalho, sendo que na última edição de POA, foi feito uma parceria com a AGAS (Associação Gaúcha de Supermercados) e os currículos foram distribuídos para todas as redes do estado. Nesta campanha foi possível  fazer com que 13 refugiados conquistassem um emprego.

“Das nossas 3 missões, as 2 primeiras já foram alcançadas com sucesso, basta dar um google e ver o tamanho da repercussão que a Copa dos Refugiados teve e tem nos mais diversos setores da sociedade” comenta Rodrigo.

 

Essas pessoas vem para nosso país em busca de um novo lar e sabemos que é bem difícil se estabilizar aqui no Brasil. “Para chegar às famílias e tornar o projeto possível  fomos apoiados pela ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), Agência da ONU para refugiados. Algumas comunidades têm resistência em dar informações pessoais, com receio de que possam chegar a algum órgão do gênero, mas os próprios refugiados que já participam da Copa ajudam nessa sensibilização”. Destacou Vicencio durante entrevista.

O que foi o campeonato e sua importância!

A Copa do Mundo dos Refugiados, por meio do futebol pode realizar sonhos, a grande final aconteceu no Estádio Paulo Machado de Carvalho, conhecido como Pacaembu, que já foi palco de uma semifinal de Copa do Mundo FIFA, onde Pelé já colocou os pés e fez inúmeros gols.

Para Garcia Neto, 52 anos, popularmente chamado de Treinador Titi, nascido em Luanda, Angola. O professor estava visivelmente emocionado com a final. “Olha, foi muito importante (jogar no Pacaembu), pois nós nunca pisamos neste estádio, então é uma honra muito grande, temos de agradecer a toda organização, que nos proporcionou esse momento tão sublime, porque estar no Pacaembu é o mesmo que entrar no Maracanã, é um estádio que tem história, vai ficar em nossa memória”.

Garcia Neto, treinador de Angola - foto: Jefferson Oliveira

Garcia veio ao Brasil em 1987, no período em que acontecia a Guerra Civil em Angola, “vim na sorte, né.. Mas com o intuito de poder estudar, poder trabalhar e ajudar minha família, principalmente minha mãe e meus irmãos” afirma o treinador.

O Brasil tem características muito parecidas com Angola, ambos falam português, clima similar até mesmo a comida ajudam na adaptação. “Bom, sinto falta mais de minha mãe e de meus irmãos, mas algo que queremos e sentimos é que um dia tenhamos um futuro melhor, porque sempre fomos um povo muito sofrido e ainda continuamos sofrendo” destaca Garcia.

O campeonato pode proporcionar aos participantes a chance de defender as cores de seu país, uma honra imensurável, além de criar maiores laços entre as pessoas. “Esse é um evento que tende a aproximar mais os povos, e essa é a maior importância.” aponta o treinador Titi.

A final aconteceu no dia em que é celebrado o Dia Nacional da Consciência Negra, no Brasil. Data importante para lembrarmos que somos todos iguais, independente da etnia, credo ou ideologia. “Vamos amar mais, cada um de nós. O amor tem de prevalecer acima de tudo!” apelo feito pelo treinador neste dia tão simbólico.

Sentimento compartilhado com o arqueiro da seleção de Angola. Arnaldo Rodrigues de Oliveira, mais conhecido por Kadih, goleiro da seleção de Angola com 27 anos, foi o herói da semifinal onde pegou dois pênaltis, dando a vaga na final a seleção  Também veio de Luanda, Angola e está a quatro anos em terras canarinhas.

Arnaldo Rodrigues "Kadih" - foto: Jefferson Oliveira 

“O Brasil é minha segunda casa, porque já tenho uma namorada aqui também risos” brinca Kadih, falando sobre sua relação com nosso País. Mesmo considerando o Brasil sua segunda casa, sabemos que não é a mesma coisa de estar em sua terra natal. “Tenho saudade da minha família, meu pai, meus irmãos. Saudade da minha família inteira” afirma o goleiro.

Kadih, que está no Brasil a pouco mais de quatro anos, veio com o intuito de estudar e buscar melhores condições de vida, além claro de fornecer suporte a sua família que ficou em Angola.

“Sofri muito preconceito quando cheguei aqui, por causa da minha raça né, raça negra, mas eu não liguei muito para isso, porque cedo ou tarde eu sabia que ia passar por isso,

mas eu encaro isso como uma coisa normal também”. Mas esse não é o sentimento correto, convenhamos que deveríamos ser mais conscientes, respeitar o próximo para que isso não seja “normal” e possamos encarar como anormal!! “A gente é igual né, o sangue é o mesmo não tem como mudar né?” afirma Kadih ao finalizar sobre o tema preconceito.

Quebrar essa barreira que é o preconceito é uma das bandeiras da ONG e seu presidente Jean Katumba. “Estamos aqui para ajudar a todos, por isso defendemos o lema “Não me julgue antes de me conhecer!” percebi que você gostou de nosso lema risos” brinca o presidente.

O futebol é uma paixão do brasileiro, é o esporte que costuma unir a família e amigos para rodas de bate papo e a representação aqui é imensurável. “O futebol representa alegria, paz e amor, eu jogo futebol por causa de minha falecida mãe, que Deus a tenha. E eu gosto de jogar futebol mesmo, desde pequeno” destaca Kadih, sobre a importância do futebol.

Algo que surpreendeu a todos, até mesmo a organização da ONG, foi a contratação de um jogador do time dos refugiados, batizado de Malaica.

Akuba Kondi, 19 anos, veio da Guiné, e chegou ao Brasil sozinho, com o sonho de crescer e se tornar um atleta. Abraçou nosso País assim que chegou. “Me sinto à vontade aqui no Brasil. Família é a família né, sinto saudades deles, sinto falta de minha irmã e meus amigos só”. Afirma Kondi.

O jovem jogador, já é oficialmente jogador do Sport Clube Corinthians Paulista, onde atuará no Fut7 defendendo as cores alvinegras.

Akuba Kondi - foto: Jefferson Oliveira

O trabalho feito pela ONG África do Coração foi essencial para atletas como Akuba, pois ela integra os recém chegados, que muitas vezes estão sozinhos neste novo país e precisam de suporte para conseguir um teto e um emprego. E a Copa ajudou muitos desses atletas a fazerem aquilo que amam, jogar futebol. “Eu não posso imaginar o quanto eles foram importantes pra mim, tudo o que eu to ganhando agora, foi graças a eles, eu não tenho como agradecer” se emociona Kondi.

Era visível que ainda não tinha caído a ficha “do campeão” da Copa do Mundo dos Refugiados.  “Ainda não sei como explicar isso, eu to fora de mim, mesmo, é sério não tenho palavras para agradecer isso!” sorria enquanto olha para medalha no peito Akuba.

A final além de render o título para o Time da Malaica foi um pouco mais especial para Akuba. “Foi o primeiro campo internacional que eu joguei, onde o melhor jogador do mundo já pode jogar, que é o Pelé então, foi memorável”. Destaca o atleta.

O futebol é sem sombra de dúvida o esporte que liga o Brasil, mas esse campeonato mostrou que é mais do que isso. “O futebol é minha vida” foi a definição de Akuba Kondi após a partida.

Logo devemos ajudar a acolher esse povo e tornar o ambiente amigável e próspero para todas as pessoas, independente de onde ela nasceu, qual sua crença ou etnia.

 

Somos um povo caloroso e apaixonado pelo esporte, e um grupo de pessoas decidiu usar esse nosso amor pelo futebol para montar um projeto social com o cunho de inclusão, que foi a Copa do Mundo dos Refugiados.

Valter Silva

Estudante de Jornalismo da Uninove, atualmente cursando mídias digitais. Apaixonado por comida, filmes, esportes e fotografia. Exímio jogador de Fifa e jogos de corrida de modo geral, além de um leitor ávido. Dedicado ao cuidado com o corpo, esportes e adrenalina e o mais político que uma pessoa pode ser. Seja bem vindo e sinta se à vontade.

 

“Encare o Grande Show que é mundo e seja maior que a Vida.”

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