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Teatro e desconstrução social a céu aberto com a peça Cora Primavera

O espetáculo que retrata a criação do vislumbrar mitológico, com personagens como Cora, Deméter e Dionísio. O Catolicismo e a mitologia se confrontam até se encontrar em discussões sociais da atualidade

Por Leticia Santos - Garoa News
19/11/2018 22:30  

A “Companhia Nada Pensativo”, traz para o cenário paulistano a peça teatral Cora Primavera, que propõe a céu aberto comunicar a cultura LGBT e discutir religião, preconceito, sexualidade, liberdade de expressão e política.

O espetáculo inicia retratando criação do vislumbrar mitológico, com personagens como Cora, Deméter e Dionísio. O Catolicismo e a mitologia se confrontam até se encontrar em discussões sociais da atualidade, questionando a moral e a ética em diversos aspectos como por exemplo o desejo, a fim de desmistificar a idealização do pecado.

 

A companhia teatral, surgiu no cenário das artes cênicas no ano de 2014 e em meio a pesquisas sobre como abordar a antropofagia no teatro de rua, originou o AntropoFrei.

Peça Cora Primavera - foto: Leticia Santos

Inicialmente o espetáculo nasceu no ano de 2016 com 5 apresentações e por questões financeiras a companhia se deparou com uma crise. Entretanto esse momento de pausa foi suficiente para despertar a necessidade de aprimorar o que já era o AntropoFrei e se tornar a Cora Primavera hoje.

Rafael Abrahão 22, um dos idealizadores do projeto é diretor do rito manifesto e nos conta como a ideia surgiu. “Um dia eu tava caminhando pela Frei Caneca e olhei para placa da rua e pensei: Imagina uma peça antropofágica nessa que é a rua icônica das “viadas”. E a partir daí as coisas foram sendo descobertas com o decorrer do processo. Quem foi o Frei Caneca, a Cora, Dionísio tudo isso foi chegando aos poucos e compondo todo esse imaginário e esse universo cosmo político que a peça traz.”

 

O enredo propõe diversas interações com o público, em determinado momento da peça os atores convidam os espectadores a pular carnaval, Rafael nos explica qual foi sua intenção ao propor esse contato. “É uma consagração da união do público. Todos dançando e cantando, já nem se sabe mais quem é quem nesse momento. A partir daí todos estão dentro e tiram as suas couraças para que possam ter a empatia com o texto. É como se na força carnavalesca viesse um banho que quebram os nossos tabus, o que nos permite olhar para o outro com a mesma, ou até superior, humanidade que existe em nós”.

Grupo de Músicos da peça - foto: Leticia Santos

A caracterização não abusa de maquiagem ou de roupas muito complexas. Até mesmo as roupas carregam a sua forma de manifesto, a maior parte dos atores se vestem com a Saia Sem Gênero, de marca independente, que é vendida após o espetáculo. A personagem Cora, tem uma das caracterizações mais detalhadas, a coroa de flores remete a primavera que em uma segunda caracterização galhos secos tomam seu lugar.

O elenco é composto por 17 atores, dois contrarregras, cinco diretores, cinco arquitetos cênicos, 15 músicos, além da toda equipe técnica. O rito-manifesto Cora Primavera acontece durante os meses de Setembro à Dezembro, mas o trabalho começou muito antes. Em janeiro deste ano (2018) os atores iniciaram os ensaios, já os músicos deram início às preparações apenas seis meses depois. Com um

elenco bem diversificado, as principais preocupações e critérios para a escolha dos atores e músicos foram compromisso, vibe, vontade e experiência, afirma Rafael. A energia dos atores transcende qualquer situação externa que interfira na peça. Além disso, Renata 36, intérprete da personagem que dá nome ao rito-manifesto (Cora) é a única que nunca atuou e ainda assim tira arrepios como Cora.  

A equipe de músicos se propôs a compor grande parte do que é tocado durante peça, são pouco mais de 10 músicas autorais, usando instrumentos como: flauta transversal, violino, cavaco, violão trombone, trompete, clarinete, saxofone, além da percussão.

Débora Predella 21, estudante de música da UNESP - Universidade Estadual Paulista, compõe o grupo de músicos como violinista e conta como foi a experiência de tocar na peça. “A música está ali em serviço da peça e não contrário, porque quando você toca num concerto você faz música pela música e numa peça de teatro não é assim que funciona. A música está em função das cenas então é um desafio você pegar o espírito da cenas e tomar aquela energia pra transferir para música e fazer com que a música interfira e potencialize a energia da cena.”

O texto proposto pela peça é extremamente polêmico, mas segundo Rafael diretor da peça, apesar do atual momento político, a equipe vem recebendo um ótimo retorno, mesmo quando citado em críticas.

Renata - Cora
Cora Primavera
Peça na Praça dos Arcos
Peça Cora Primavera
Cora Primavera
público interage durante peça
Personagem Cora
durante a peça

“A peça é sensacional, tanto em questão de representatividade quanto diversidade da galera LGBT e a forma que eles retrataram a questão da religião na sociedade, pois acreditamos que o Brasil é um estado laico, o que na verdade não é. O estado é católico e a bancada é evangélica e por isso que as outras religiões são massacradas e quem participa delas também.” afirmar Juliana Oliveira 21, estudante de publicidade da Faculdade Zumbi dos Palmares. “A peça representou o modo que eu penso, o modo que eu vejo o mundo” completa sua amiga, Thais Siqueira 20.

Entrevistamos também o estudante de história Misael Victor 21, que também esteve presente na primeira apresentação. “Nós, mais jovens e mais esclarecidos, gostamos da peça por mexer com os dogmas da igreja e com questões da sociedade. Acho que foi bem corajoso fazer tudo aquilo em praça pública próximo da época de eleição. A peça fez muito bem o papel de cutucar as feridas da sociedade. Não sei como alguém mais conservador reagiria. A peça aconteceu em uma praça pública no centro da cidade de São Paulo, o que me fez lembrar movimentos antigos e com a atual conjuntura, não sabemos como será fazer algo desse tipo daqui pra frente.” finaliza Misael.


Cora Primavera é o olhar cultural que a capital de São Paulo tanto clama. Nessa rotina corrida, dos carros e das rápidas passadas, o dinamismo da peça se transformou na necessidade de parar o tempo para discutir questões que são e sempre serão importantes. Assuntos sobre o que é moral? O que é imoral? E que moral é essa que a gente vive? O Rito-manifesto Cora Primavera, acontece todos os sábados às 16h30, na Praça dos Arcos, ao lado da Avenida Paulista, até o dia 1 de Dezembro.

Leticia Santos

Leticia é estudante de jornalismo da Uninove e um metro e meio de pura hiperatividade, com apenas 21 anos de idade a tagarela não sabe se controlar quando o assunto é serie e música. Não é muito fã de esporte mas vira um peixe quando cai na água. Teatro e cinema também são assuntos que estão na ponta língua. Eterna apaixonada por Sampa vive turistando e se sente completa quando escreve sobre a capital.

 

 

"But girl dont let your dreams be dreams"
Jack Johnson

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