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Gervásio Henrique

Estudando Jornalismo na Uninove. Cinema, esportes, viagens e comunicação me fascinam. Comprometido em realizar o melhor trabalho possível. Disposto a vivenciar o que me está reservado nesse louco mundão e ciente de que na vida somos apenas aprendizes. Quanto mais aprendemos, mais temos o que estudar.

"Você viveu, aprendeu e se tornou  melhor"

A HISTÓRIA DO CINEMA NACIONAL

A matéria conta os principais momentos dos mais de 120 anos de cinema nacional em nosso país até que se chegasse ao momento presente da cinematografia tupiniquim

Por Gervásio Henrique - Garoa News
24/11/2017 14:21  

Surgimento

 

O Cinema no Brasil surgiu no final do século XIX, logo após a invenção dos irmãos Augute e Luis Lumière em Paris. A partir de 8 de Julho de 1896, passaram a ser exibidos filmes (inicialmente sutis filmagens, em pequenas minutagens) no Rio de Janeiro.

Os italianos Paschoal e Affonso Segretto deram

início ao cinema em terras brasileiras. Paschoal,

instalou a primeira sala de cinema no Rio, enquanto

Affonso, no ano seguinte, realizou as primeiras

filmagens brasileiras na Baía de Guanabara e em

São Paulo, na celebração da unificação italiana,

ocorrida anos antes. ''A vista da baía de Guanabara''

foi o nome por qual ficou conhecido a filmagem do

porto, na chegada de um navio que retornava da

Europa. Ainda no fim do século, outro italiano,

Vitor di Maio, inaugurou a primeira sala em São Paulo.

As produções, inicialmente, retratavam o cotidiano

carioca, então capital nacional.

Início do século XX

Inicialmente tudo era produzido em baixa escala, visto a precariedade tecnológica em uma era em que essa arte ainda estava sendo explorada em seus princípios. Neste período, as filmagens aos poucos iam se desenvolvendo, porém a captação de áudio era algo inovador que não havia ainda sido alcançado. É a fase do cinema mudo, em que as imagens retratadas não têm sonoridade. Usava-se músicas ou efeitos sonoros elementares.

A Usina de Ribeirão das Lajes, no Rio, começou a possibilitar uma produção em maior escala de filmes, visto que o serviço de energia elétrica passou a ser mais abundante. O primeiro filme brasileiro foi produzido por Antonio Leal, em 1908. Tratava-se de uma ficção científica de 40 minutos, que retratava um crime que havia sido amplamente divulgado pela mídia à época. Os primeiros atores eram oriundos do teatro. A Primeira Guerra Mundial fez com que a evolução do Cinema por aqui se aquietasse, voltando-se mais para documentários, como os que retratavam fatos políticos e os ''cantantes'', com números musicais.

Com o investimento de Francisco Serrador, começa-se a difundir a cultura dos filmes estrangeiros nas salas que ele mesmo possuía. Em contraste a isso, o cineasta Vittorio Capellaro aparecia como o principal responsável pela retração da literatura nacional nas obras cinematográficas, como ''Iracema'' e ''O Guarani''.

Em um primeiro momento essa inovação comprometeu a qualidade das produções, mas o avanço na arte era inegável. Há quem diga que o cinema desde os primeiros momentos teve a oportunidade de ter o áudio real incorporado ao filme, porém o alto investimento era preterido, para priorizar a aplicação na produção e roteiro.

Nos anos 20 e 30, surgiram as primeiras revistas especializadas,(''Para Todos'', ''Selecta'' e ''Cinearte''), expandindo nosso cinema pela primeira vez, em um período caracterizado pela influência estadunidense.

As Chanchadas e as produtoras

É nesse período que surge a Cinédia, o primeiro grande estúdio cinematográfico do Brasil. O set foi responsável pelas grandes produções da época, como: ''Limite'', de Mário Peixoto; ''A voz do Carnaval'', de Ademar Gonzaga (fundador da Cinédia) e Humberto Mauro, além de ''Ganga Bruta'', também de Humberto Mauro.

As ''chanchadas'', nome pelo qual ficaram conhecidas as obras de caráter dramático e musicais que transmitiam o humor puro, simples e popular, começam a surgir nesse momento com a Cinédia. Os filmes cômicos e/ou musicais eram produzidos com baixo custo e rapidamente se tornaram a maior tendência em um momento de predomínio da influência estrangeira no Brasil.

O segundo grande estúdio de cinema, e que tornou as chanchadas

ainda mais famosas, foi a Atlântida, fundada em 1941, por Moacir

Fenelon e José Carlos Burle, no Rio de Janeiro. Filmes como:

''Moleque Tião'', ''Tristezas não pagam dívidas'' e ''Carnaval no fogo''

são os principais sucessos. Oscarito, Grande Otelo, Anselmo Duarte,

Carmem Santos e Carmem Miranda são os principais atores e atrizes

surgidos na época.

Uma tentativa de terceiro grande estúdio foi a Companhia Vera Cruz,

no fim dos anos 40. Como destaque, a produtora revelou o ator

Mazzaropi, o famoso ''Jeca Tatu''. O ator, assim como os principais

colegas migraram para a TV apósa Vera Cruz falir, em um momento

que essa nova tendência se instalava no Brasil. ''O Cangaceiro'', de

Lima Barreto e''Destino em apuros'', de Ernesto Reimani, foram os

principais filmes desse período, com o primeiro sendo vencedor no

Festival de Cannes.

O cinema começava, então, a se profissionalizar em nosso país no

ínicio da segunda metade do século XX.

Cinema na Ditadura

Nos momentos iniciais do Regime Militar no Brasil, o cinema marginal ou ''Údigrudi'' ganha destaque. O nome fazia alusão irônica ao termo ''underground'', oriundo dos Estados Unidos. Consistia em produções sem grande apelo, pois seguiam uma linha diferente da habitual, experimental. Um dos filmes mais famosos foi ''O Bandido da luz vermelha'', de Rogério Sganzerla.

Em tempos de regime militar, é criada a Embrafilmes, empresa estatal que atua no financiamento das produções. Significava uma tentativa de impulsionar o cinema nacional, como forma também de atender a um dos pedidos da classe cinematográfica, enquanto a Censura não deixava passar nada que fosse de oposição ao governo (característica do cinema novo). Apesar de haver espaço para a exibição de filmes nacionais, as obras de repúdio à política da época, eram dispensadas ou 'maquiadas'. É o momento em que começam a se destacar os filmes com teor populistas, as comédias pastelão e os romances clássicos. Tudo que não tivesse cunho político-social.

Nos anos 20, o Brasil passa a ser um dos principais importadores da cultura cinematográfica americana, desvalorizando assim a cultura local e desviando-se da orientação europeia que tinha desde a sua criação. O processo ocorre em meio a um momento de expansão de criações nacionais, gerando um conflito nos anos próximos. Na segunda metade desta década, Minas Gerais começava a figurar como um novo polo cinematográfico, com destaque para Humberto Mauro. Pernambuco e Rio Grande do Sul também se mostraram referências na arte. Eram os ciclos regionais.

Na virada da década, adentrando aos anos 30, no Brasil (e no mundo) começavam a ser produzidos filmes, com sons.

Paschoal Segretto, arquivo digital

Guilherme de Almeida: crítico de cinema

pioneiro em colunas periódicas nos anos 20, arquivo digital

Carmem Miranda, arquivo digital

 ''Cinédia'', arquivo digital

Cinema novo

Com o lema: ''uma câmera na mão e uma ideia na cabeça'', essa fase do cinema nacional significou uma forma sobretudo de se manifestar em meio ao contexto histórico-social que o Brasil vivia. Era uma forma de colocar em discussão questões importantes da realidade do país em todos os aspectos (econômico, cultural e social). Representou também o período de ascensão do cinema brasileiro, tornando-o conhecido no mundo todo. O resultado de tudo isso é a criação do curso de Cinema e Audiovisual, pela ECA-USP, em 1966 e o primeiro festival nacional de Brasília, um ano depois.

Teve o seu começo com o lançamento de ''Rio 40 Graus'', de Nelson Pereira do Santos. A temática retratada nesse período, buscava alertar os problemas políticos e sociais vivenciados no nosso país, migrando assim para produções que retratavam o contexto brasileiro de uma forma mais despojada e realista.

Glauber Rocha se destacou como o mais importante cineasta desse novo cenário. Filmes como: ''Deus e o Diabo na terra do sol'' e ''O Dragão da maldade contra o Santo Guerreiro'' foram os principais trabalhos dele.

 Glauber Rocha, arquivo digital

Nos anos 70, surgem e também fazem sucesso, as pornochanchadas, com produções cômicas e de forte teor erótico. O que fez com que o Brasil carregasse essa fama por muito tempo, pelo menos para quem critica ou criticava o cinema nacional. Vale lembrar que o nome deriva das chanchadas (ocorrida anos antes), que são películas de baixo teor crítico (ou inexistentes). Destaque para ''A viúva virgem'', de Pedro Carlos Rovai. As pornochanchadas começaram a ser substituídas para as pornografias propriamente ditas e deflagradas, na década seguinte.

Nessa época é lançado ''Dona flor e seus dois maridos'', de Bruno Barreto, inspirado no livro de Jorge Amado e distribuído pela Embrafilmes. Em um momento de decadência do cinema nacional, o filme de Bruno Barreto e ''Os Trapalhões'', alcançaram um público jamais visto, quantitativamente falando. A primeira, foi por muito tempo o maior público do cinema.

Terra em Transe, 1967, arquivo digital

Os Trapalhões

Criado por Wilton Franco, os filmes e série televisiva, tinha como protagonistas: Didi (Renato Aragão), Dedé (Dedé Santana), Mussum (Antônio Carlos Bernardes Gomes) e Zacarias (Mauro Faccio Gonçalves). A série já fazia sucesso há algum tempo e tem o seu auge no momento de transição da Ditadura para a redemocratização do país. O sucesso pode ser explicado muito pelo cunho de comédia pastelão, justificado por anos anteriores de forte repressão às produções mais bem contextualizadas, que retratassem o real momento da população e engajadas politicamente.

 ''Os Trapalhões'', arquivo digital

Pós-Ditadura e seu legado

Com o fim da Ditadura, o cinema passa a perder muito espaço. A crise econômica acentuada impediu as produtoras de lançar muitos filmes e o público não conseguia, como antes, buscar as produções nos cinemas. O lançamento dos videoscassetes, fizeram com as pessoas deixassem de ir as salas e investissem em compras de filmes para assistir em seus lares. Para ficar ainda pior, as ações do presidente Fernando Collor complicaram ainda mais. Ele, dentre outras ações, acabou com a Embrafilme, Concine e a Fundação do Cinema Brasileiro, além do Ministério da Cultura. 

 Fernando Collor de Mello presidente

Brasil entre 1990 e 1992, arquivo digital

''Retomada''

Após alguns anos de crise o período que ficou conhecido como ''o cinema da retomada'', representou a volta de produções em larga escala, no decorrer dos anos 90. Em 1993, foi criada a ''Lei do Audiovisual'', que visava o investimento na produção de obras cinematográficas, impulsionando assim, novamente, o mercado interno. ''Carlota Joaquina, Princesa do Brasil'', em 1994, de Carla Camurati, surgiu nesse contexto, como a primeira realização da lei, prevista até 2023. ''Central do Brasil'' de Walter Salles, junto com ''O que é isso companheiro'', de Bruno Barreto, foram duas das produções de maior sucesso à época.

 ''Lei do Audiovisual'', regulamentada em 1993, arquivo digital

Cinema contemporâneo

A transição dos anos 90 para os anos 2000 representou a entrada da Globo no mercado cinematográfico, com a Globo Filmes, em 1997. A empresa (Globo) já consolidado como uma das maiores emissoras do mundo, em pouco tempo, conseguiu uma participação grandiosa na receita da bilheteria nacional.

Nos primeiros dez anos do século atual, migrando da retomada para a pós-retomada, se destacam (provavelmente entre as melhores da história também) os filmes: ‘’Cidade de Deus’’, de Fernando Meirelles; ‘’Carandiru’’, de Hector Babenco e ‘’Tropa de Elite’’, de José Padilha. Este último tendo a sua sequência posteriormente, com novo sucesso absoluto. Todos esses filmes representaram uma ascensão internacional, levando o cinema atualmente a ter horizontes de como se produzir algo que possa, pelo menos, tentar brigar com as badaladas produções estrangeiras (de preferência com a nossa cultura devidamente retratada), mesmo que por aqui, o cinema não seja ainda uma indústria estabilizada, como nos exemplos dos Estados Unidos e de muitos países europeus e até sulamericanos.

A respeito disso, o cineasta e pesquisador de história do cinema pela USP, Donny Correia, explica:

''O Brasil não tem uma indústria e nunca vai ter. Nos Estados Unidos existe um sistema de economia baseado no cinema. Fazer cinema lá é uma atividade industrial. O Brasil não tem uma indústria. Exatamente por que nunca teve uma continuidade ao longo das décadas. Ou seja, cinema no Brasil é uma coisa completamente à margem até hoje e acho que vai continuar por muito tempo. Não dá para ter uma indústria cinematográfica no Brasil, por que não tem como desenhar um quadro econômico que seja autossustentável, sempre tem uma intervenção de órgãos do estado, sempre vai depender de diversos patrocínios. Como não tem produção em escala industrial, não se consegue dar conta das outras etapas. Então, não tem como fazer frente, esse é o principal problema''.

Globo Filmes, 1997, arquivo digital

Principais Filmes e Premiações​

  • ''A vista da baía de Guanaraba'' (1898), Affonso Segretto: primeiro filme feito no Brasil;

  • '' Os Estranguladores'' (1908), Antônio Leal, primeiro longa-metragem;

  • "Limite" (1931), Mario Peixoto;

  • ''Destino em Apuros'' (1953), Ernesto Remani, primeiro filme nacional em cores.

  • ''O Cangaceiro'' (1953), primeiro filme brasileiro premiado em Cannes;

  • '' Rio 40 graus'' (1955), Nelson Pereira dos Santos;

  • ''Orfeu Negro'' (1959), Marcel Camus, primeiro filme premiado com a palma de outro e melhor filme estrangeiro nos EUA;

  • "Deus e o Diabo na Terra do Sol'' (1964), Glauber Rocha;

  • "Cabra marcado para morrer'' (1984), Eduardo Coutinho;

  • ''Carlota Joaquina, Princesa do Brasil'' (1995), Carla Camurati;

  • ''O que é isso companheiro'' (1997), de Bruno Barreto, indicado ao Óscar;

  • ''Central do Brasil'', (1998), Walter Salles, indicado ao Óscar de melhor filme estrangeiro e melhor atriz para Fernanda Montenegro, primeiro filme brasileiro vencedor do Urso de Ouro; 

  • ''Cidade de Deus" (2002), Fernando Meirelles,
    indicado a quatro categorias no Óscar;

  • ‘’Tropa de Elite’’ (2007), José Padilha,
    vencedor do Urso de Ouro;

  • ''Os dez mandamentos'' (2016),
    Vivian de Oliveira, maior bilheteria; 

Veja a seguir os principais momentos da entrevista com
Donny Correia: escritor, poeta, cineasta, bacharel em letras,
mestre e doutorando em Estética e História pela USP. 
É ainda, tradutor e intérprete pelo Centro Universitário
Ibero-Americano (Unibero). Escreveu e dirigiu os curtas
Anatomy of decay (2008), Brain Eraser (2008) e Totem (2010),
selecionado para a 34ª Mostra Internacional de Cinema em
São Paulo. Publicou as obras de poesia:
Corpocárcere e Zero nas veias, entre outras.

Confira a entrevista completa.

GaroaNews - Como você vê a atual cena do cinema nacional? Ainda está muito atrás das produções estadunidenses e europeias?

Donny: ''Não dá para compara o cinema brasileiro com o cinema americano pela questão da indústria. O que o Brasil tem é uma série de cineastas que vêm de uma época em que os caras eram pioneiros e acabaram ficando, como por exemplo Luís Carlos Barreto, Walter Salles, a Ancine, que tem um monte de edital para fazer filmes e captações. Só que existe um controle de quem já é do meio. Filme brasileiro por mais bem acabado que seja, se não for uma coisa padrão Globo Filmes, essas coisas ''neochanchadas'' como, ''Se eu fosse você'', ''De pernas pro ar'', essas coisas, vai entrar no Cine Sesc ou Espaço Itaú de cinema, em duas seções, às 16h no meio de semana e duas semana depois já sai de cartaz. Então, não tem como fazer frente, esse é o principal problema. Do ponto de vista o filme tem melhorado muito. O problema do Brasil ainda é roteiro. Os filmes ssaem todos iguaizinhos. Isso também é uma herança da Tv (das novelas), que é o que dialoga diretamente com o público. Por isso os filmes da Globo Filmes, Porta dos fundos, ''Cidade de Deus'', acabam sendo fenômenos de bilheteria por que trazem um estrutura de publicidade muito mais vinculado à fórmula Televisão do que do Cinema. Por isso que se você pega um filme argentino, você fica estarrecido de tão melhor que é. Os caras chegaram à um nível de produção cinematográfica que é mais o menos regular. No Brasil isso é totalmente irregular. No Brasil, falam de ''cinema da retomada'', qual retomada? Estão há 20 anos falando disso, mas é um filme bom para dez ruins. Isso quando você consegue assistir ao filme. Tem filme que estreia depois de 2 anos por que não consegue distribuidora, que não quer colocar no cinema, por que  óbvio que ele vai ter mais lucro colocando um filme como ''A liga da justiça''. Então o problema é industrial mesmo, de base''.

GaroaNews - O que acha do preconceito popular com o nosso cinema? É justificável?

Donny: ''O preconceito existe desde o começo, tanto que nos anos 20, por causa dessa dificuldade de colocar os filmes em cartaz e pela dificuldade de produzir, os filmes eram muito amadores. ‘’O segredo do corcunda’’, por exemplo, era a imitação da imitação hollywoodiana. Os caras se juntavam, cada um dava dinheiro e escolhiam as funções sem capacidade. Então, como não tinha estrutura para fazer uma produção profissional, a coisa ficava muito amadora. Nos anos 30 e 40 vieram os filmes musicais, e eles já sofriam com o preconceito dos críticos, que diziam que eram feitos para diversão de massa, que não havia qualidade estética, engajamento político, etc. Nos anos 60 o cinema novo vai colaborar ainda mais para esse preconceito, pois eles começam a fazer filmes revolucionários, como: ‘’Deus e o Diabo na terra do sol’’, ‘’Vidas Secas’’ e ‘’Terra em transe’’, e aí é outro lado da moeda, era difícil demais para a população mediana, não havia diálogo. O cinema novo queria usar o cinema para conscientizar a população sobre os problemas do país, só que os filmes eram ininteligíveis para as pessoas analfabetas, que era um número gigantesco nessa época. Um analfabeto da roça não via aquilo com uma coisa da realidade dele, não entendia nada. Ele queria filminho com música de carnaval e Vicente Celestino cantando, por que era uma coisa da cultura popular. Quando chega nos anos 70, na pornochanchada é quando complica a questão do preconceito, pois o cinema fica estigmatizado como pornográfico. Porém esse argumento já vinha dos anos 40, por que os críticos falavam que os filmes brasileiros só tinham mulheres dançando, piadas de duplo sentido e que eram pornográficos. Não eram! Eram comédias popularescas. Mas eles usavam esse termo para denegrir. Então, ficou incrustrado que o cinema brasileiro é pornografia pura e não se livrou disso ainda, até hoje é assim’’.

GaroaNews - Você é coordenador Casa Guilherme de Almeida, que faz parte da Rede de Museus-Casa Literários. Pra quem não sabe, poderia dizer quem foi o homem que dá nome ao museu? Qual a contribuição dele para a cena do cinema brasileiro?

Donny: ''O Guilherme de Almeida foi um poeta que participou da semana de 1922. Ele é um dos idealizadores da Semana de Arte, então um dos idealizadores do Modernismo em São Paulo e tradutor de poesia também. Ele trouxe para o Brasil pela primeira vez vários autores e poetas franceses e tudo mais. Ele traduzia e publicava, desde o período provençal até o século XIX. Ele escrevia para várias colunas de jornais e em 1926 o Estadão convidou ele para assumir uma coluna que chamava ‘’Cinematographos’’, que era o nome do cinema no começo. Era uma coluna de serviço, falava os filmes que estavam em cartaz, o horário e o lugar. Com essa coluna ele começou a escrever crítica, mesmo não tendo uma metodologia de crítica cinematográfica na época. As revistas traziam uma ou outra coisa do cinema brasileiro, focados nas celebridades ou em transformar em fotojornalismo. Então, não havia um veículo de crítica e aí, o Guilherme começou a desenvolver isso por ele mesmo. Ele via o filme, escrevia o que achava do desempenho do ator ou da atriz, da história, falava também das salas de cinema em São Paulo, assinava as revistas internacionais de cinema. Ele ficou até 1942 escrevendo. Foram 2.718 críticas mais ou menos. Apenas em um ano ele não escreveu, de 32 a 33, pois como participou da Revolução Constitucionalista teve que ficar um ano exilado em Portugal. Quando ele voltou, continuou escrevendo. De 2012 a 2015, o Marcelo (diretor da casa) e eu pesquisamos todas as críticas no arquivo do Estadão e selecionamos 218, nem 10%, ficou um livro de 680 páginas que saiu no ano passado pela editora Unesp, mas não deu para colocar tudo, claro. Então, fiz um recorte sobre o que ele falava do cinema europeu, sobre esses filmes que hoje são clássicos, sobre o que ele falava na época do lançamento. Por exemplo: em ‘’Cidadão Kane’’, considerado o maior filme de todos os tempos, ele falava que quando estreou em São Paulo, com 20 minutos de filme, metade da sala já estava indo embora, mas que era um filme que tinha que prestar atenção por que o Orson Welles era novinho, ainda estava aprendendo, mas já tinha muito talento. E isso é um barato por que não se sabe o que o filme vai se tornar depois. Os críticos que vieram depois falavam que ele metia o pau no cinema nacional por que ele tinha má vontade, mas ele falava por que era ruim mesmo. Tanto que as coisas boas ele falava super bem, como ‘’São Paulo, sinfonia da metrópole’’, ‘’Fragmentos da vida’’, etc. Então, ele foi muito importante pois abriu caminho para os críticos de jornais diários que temos hoje em dia, estabelecendo uma metodologia pra se abordar um filme para um periódico diário''.

GaroaNews - Seguir com as produções de cunho social, que rendem mais sucesso por aqui, ou se voltar para a questão da produção mais bem elaborada, mesmo que deixando de lado a primeira proposta? Qual o caminho mais viável para o sucesso e para ganhar o respeito das pessoas com os filmes brasileiros?

Donny: ‘’O cinema brasileiro tem capacidade de incorporar a tecnologia atual. No Brasil, não temos filmes de gênero: terror, ficção, etc. É um ou outro que acaba aparecendo. Por não ter uma indústria também não temos cinema de gênero. Eu acho que o caminho para mostrar o cinema brasileiro, com a tecnologia e outros suportes atuais, seriam as coproduções, como por exemplo o lançamento de ‘’O Matador’’ do Marcelo Galvão, com produção da Netflix. É interessante fazer parcerias com redes internacionais e tudo mais para poder trazer verba para voltar para uma produção com mais cuidado que possa trazer retorno. (‘’O Matador’’) Parece ser um filme bem interessante. Então, quanto mais a possiblidade de coproduções assim com outros países, melhor. Não dá para entrar no cenário internacional sem um cartão de visitas. Esse é o caminho mais viável para o cinema brasileiro em si. Ainda mais agora, que as salas de cinema estão perdendo para os streamings como Netflix. A estrutura que usam para fazer novelas na Globo, por exemplo, está mil anos à frente do cinema, por que há um retorno por conta dos patrocinadores. A TV está muito a frente, por que tem retorno do telespectador que cobre a cota do patrocinador e o cinema não tem isso. Tanto que quando ‘’Os Dez Mandamentos’’ foi para o cinema, apesar das compras diretas de ingressos, foi aquela explosão. Que levem as pessoas para o cinema para assistir filmes brasileiros mesmo! Foi uma coprodução com a TV, então acho que é por aí para o cinema brasileiro melhorar, pois se firmar ainda é impensável’’.

GaroaNews - Como foi ter um trabalho selecionado para a 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo? O que achou da edição mais recente (41ª)?

Donny: ''Foi muito bacana por que eu não esperava que fosse entrar. Foi um curta bem modesto, eu gastei R$ 300 para fazer, tudo na base da amizade, em 2009. Filmei em dois fins de semana. Foi muito doido por que é um curta amadorzinho, por que eu já tinha estudado cinema antes, mas como eu vim para a literatura, então eu parei um pouco de filmar. Então, quando eu acabei (a faculdade de literatura), pensei em filmar alguma coisa. Na época peguei umas ideias meios surrealistas assistindo filmes do David Lynch. Não ficou exatamente do jeito que eu queria pelas limitações e tudo mais. Porém, eu mandei para a amostra no último dia e fiquei surpreso quando entrou. Ele (o curta), passou em três dias e locais diferentes. Primeira vez no MIS (Museu da Imagem e do Som de São Paulo). Foi muito bacana isso.

Amostra é difícil de se acompanhar tudo. Eu acho muito interessante, o que trazem, por que dificilmente tudo vai entrar em circuito comercial, então é uma forma das pessoas tomarem contato. O grande problema é que não é de hoje que a Amostra Internacional de Cinema se tornou uma coisa meio hippie, as pessoas vão por que é cool ir à Amostra. Eu confesso que não vou. Eu não paro a minha vida para pagar R$500 em uma permanente e ficar correndo de um cinema para o outro. Eu já fui em alguns filmes, mas esse ano acabei não indo por conta de trabalhos. Mas é interessantíssimo! Até houve uma preocupação quando o Leon Cakoff faleceu, mas a Renata, sua viúva é super competente. Não dá para pensar o cenário de São Paulo sem a Amostra Internacional de Cinema, já é uma data. Pessoalmente, eu gosto daqueles filmes bem obscuros, que não vão entrar em cartaz e se não for assistir nessas amostras não se consegue ver nunca, nem tudo fica acessível para se ver na internet’’.

Fontes de pesquisa:

https://www.infoescola.com/cinema/historia-do-cinema-no-brasil/
 

https://www.todamateria.com.br/historia-do-cinema-brasileiro/
 

https://abraccine.org/2015/11/27/abraccine-organiza-ranking-dos-100-melhores-filmes-brasileiros/
 

http://www.estrelando.com.br/ranking/2017/06/19/as-dez-maiores-bilheterias-de-filmes-brasileiros-210911/foto-1
 

https://www.coladaweb.com/artes/cinema-no-brasil-parte-1

Carmen Miranda

Provavelmente a atriz brasileira de mais famosa em toda a história. Teve seu ápice ao ser contratada para atuar nas produções de Hollywood. Era influente não só por ser atriz, mas também como cantora, fazendo sucessso antes mesmo de atuar em filmes. Nascida em Portugal, Carmem estreiou como atriz em 1936, mas foi em 1939 que ela se mostrou de vez em ''Banana da Terra'', cantando '' O que é que a baiana tem'', música que virou marca da sua personalidade. No musical, ela fazia o papel de uma vendedora de frutas, caracterizada como todos a conhecem até hoje.

        

Nos anos 40, Carmem Miranda ganhou ainda mais notoriedade, estreiando em Hollywood (''Serenata Tropical'') e sendo contemplada na calçada da fama, fato inédito para uma sul-americana.

 

Donny Correia, arquivo pessoal

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