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Cine favela e o pioneirismo no cinema comunitário

Veja a história do projeto sem fins lucrativos que visa integrar jovens e adolescentes para uma vida digna em meio as influências negativas da favela de Heliópolis.

Por Gervásio Henrique - Garoa News
23/11/2017 12:30  

Criado em 2003, por Reginaldo de Túlio e mais 7 fundadores (dos quais apenas ele permanece atualmente), o Cine Favela Associação Cultura e Artística, um projeto sem fins lucrativos, começou sem maiores pretensões, apenas como forma de incluir as pessoas interessadas em participar de produções independentes, realizadas na Comunidade de Heliopólis, Zona Sul de São Paulo.

O interesse se deu principalmente após a produção

do longa ''Uma gota de sangue'', em 2002, produzido

por Vladimir Modesto (diretor), Paulo Watanabe

(roteiro) e filmado por Gildivan Felix. O apoio ficou

por conta dos comerciantes da região e da UNAS

(União de Núcleos, Associações dos Moradores de

Heliópolis e Região), assim como os personagens,

todos moradores de Heliópolis, inclusive Reginaldo.

O enredo do filme era uma forma de chamar a atenção

para a precariedade da saúde pública nesta região. 

O filme, ''Excluído da Sociedade'', filmado na época da criação do projeto, e que só recentemente foi editado e lançado no Youtube, pode ser considerado o primeiro filme com a organização do Cine favela. A produção contou com a participação de Otávio Mesquita, no personagem de um policial. O filme trás a tona a realidade de discriminação que sofrem os moradores das favelas no Brasil, além da postura dos governantes, passivos quanto as diferenças sociais em nosso país, um tema ainda amplamente discutido em nossa sociedade. Os aparelhos utilizados para as gravações eram precários e emprestados, contando com a ajuda da comunidade.

Porta Principal Cine Favela foto por Gervásio Henrique

Donizete - Diretor Cultural e Editor de Excluídos da Sociedade

Foto por: Gervásio Henrique

Atualmente, o Projeto conta com oficinas de cinema, teatro, inclusão digital e esportes, como: karatê, capoeira e boxe (em breve), em sua maioria realizados na sede do projeto, um antigo bar, alugado. Um dos principais destaques ainda é a exibição de obras cinematográficas que acontecem com certa regularidade. O Cine favela é pioneiro no que se trata de integração social e cultural na área de Cinema em comunidades, havendo inclusive, convites para realizar o projeto em outros locais, como no Rio de Janeiro e em Rio Grande da Serra. No entanto, a falta de de condições financeiras impede que isso aconteça.


Considerado um sucesso pelo seu criador, por se manter até hoje, mesmo com as origens humildes e a falta de aporte financeiro, o Cine favela já foi representado internacionalmente pelo diretor cultural, Donizete Bomfim dos Santos, em países como Holanda, Bélgica e El Salvador. 

''As pessoas se perguntam: como eles conseguem fazer isso sem dinheiro? É muito árduo, é muito difícil. É a mesma rotina há muito tempo'', conta Túlio.

Apesar disso, o momento atual é complicado. Sem parceiros para impulsionar o programa, o ''Festival Cine favela'', que já aconteceu 11 vezes desde 2003, não será realizado esse ano pela falta de verba.

''É uma pena que não vai acontecer esse ano, é contra a minha vontade. Mas não adianta dar um passo maior do que a perna. Temos que fazer arte, imprimir flyers, banners, cartazes, correr atrás de parceiros e etc, e isso exige tempo e dedicação. Então, é complicado'', lamenta Reginaldo. O evento, normalmente anual, busca disseminar as produções das periferias, realizadas por ONGs, Associações e produtores independentes.

A falta de estrutura é o maior empecilho na busca pelo crescimento do Cine favela, pois sem recursos não é possível manter os profissionais de confiança, que em busca da sobrevivência trabalham em serviços externos a área de cinema. Reginaldo conta atualmente com duas pessoas capacitadas para montar projetos, o que na visão dele é pouco, visto que alavancar qualquer criação é um grande desafio, assim como mantê-los em evidência. Ele busca assim, a todo momento, conseguir novas ideias para concorrer a editais e para isso, acredita que é preciso qualificação no planejamento para ter chances reais de ganhar alguma produção. Em busca de maior visibilidade, Reginaldo é otimista quanto a obtenção de patrocinadores.

''No dia em que a gente conseguir alguém para patrocinar nós, eu acho que a gente nunca mais se desvincula deles''. E explica: '' por que a gente gosta de fazer tudo que a gente faz, bem feito e com carinho para dar resultado. Então, é isso que o parceiro quer ver: o trabalho bem feito, organizado, mostrando o que fez. É isso que o patrocinador busca, principalmente na periferia que a gente reside hoje. A maior periferia da América Latina, se eu não estiver enganado''.

Nas redes sociais, o Cine favela está ativo no Facebook e no Instagram, assim como no site: : http://www.cinefavela.org.br. Lá são publicados todas as novidades da organização, entre curtas e longas metragem, oficinas e eventos. O trabalho mais recente é o título ''No Beco da Preta''. Inspirado na peça teatral de mesmo nome, o documentário atenta para a situação da mulher negra, moradora de comunidade (Heliópolis), que enfrenta diariamente o preconceito ao ocupar uma profissão e frequentar lugares incomuns para pessoas humildes.

Veja a seguir a entrevista completa com Reginaldo de Túlio, fundador do Cine favela.

GaroaNews - Como surgiu a ideia do projeto e como ele se deu na prática?

‘’Ninguém na época pensou em criar um projeto cultural, social ou esportivo. Nós não tínhamos essa visão. Eu fui atuar no filme ‘’Uma gota de sangue’’ e comecei a me envolver, fazendo o que outros fazem aqui hoje, trabalhando na produção do mesmo filme e colaborando com a criação daquele trabalho. Acabou o filme e rodamos algumas cenas dentro da Comunidade. Transformamos a creche em um hospital para o filme, pois a creche era comprida. Aí nasceu a curiosidade da Comunidade de querer participar também de um filme. No começo quando eu falei para a minha mulher, ela achou que era piada.

No lançamento do filme, quando tinha até a Globo, ela percebeu que não era brincadeira. Então, produzimos o filme ‘’Excluído da Sociedade’’, com câmeras humildes e variadas, e só agora, foi editado pelo Donizete e lançado no Youtube.  Para fazer o filme, tivemos que ensaiar as pessoas que queriam participar do filme, e aluguemos esse espaço. Aqui tinham 60 caras correndo, suando, sem ventilador, todo domingo.

Reginaldo de Túlio fundador do projeto Cine Favela

Foto por: Gervásio Henrique

Comecemos a rodar o filme numa sexta-feira, à meia noite para não ter muvuca na rua, mesmo assim, 1 hora da manhã a rua ficou lotada na comunidade. Então, discutimos e tivemos a ideia de passar filmes para a comunidade. Naquela época a gente alugava o projetor com mesa de som por R$ 200. Então começamos a passar filmes. Por ideia da minha mulher pensamos em comemorar 1 ano de Cine favela naquela época e surgiu a ideia de premiar os atores e diretores da comunidade. Vieram então, o segundo, o terceiro festival e hoje estamos aí com o 12º festival. Esse ano não vai ter infelizmente. A esperança é se entrarmos em um edital para ver se não ficamos mais um ano sem festival’’.

Veja a Entrevista na integra:

GaroaNews -  Qual foi ou quais foram as principais dificuldades enfrentadas incialmente para tocar o projeto pra frente? E atualmente?

‘’O Cine favela sempre teve dificuldade na parte financeira. Mesmo no momento que a gente tinha o ‘’Ponte de cultura’’, tínhamos ajuda, mas nunca tivemos o aluguel pago por alguém para ajudar. Seria lindo se tivéssemos um espaço nosso. Com o dinheiro do aluguel, contrataríamos pessoas para montar projetos, captar recursos e etc. Mas não adianta reclamarmos. É igual aquele ditado: ‘’se você falar que está morrendo, só acreditam quando você morre’’. Não adianta nada falar nas redes sociais. Enquanto der a gente segura, quando não der mais, parou. Para criar um projeto, precisa pensar um bom tempo o que você quer abranger com ele, onde quer focar, qual objetivo e o que a comunidade necessita pra investir, então é complicado!’’.

GaroaNews - Quanto aos trabalhos: quantos, aproximadamente, e quais os mais marcantes?

''Nós temos um apreço por todos trabalhos feitos. Antigamente se produzir cinema era muito complicado, eu acho que quebramos uma barreira muito grande conseguindo fazer tudo ao contrário. Temos hoje equipamentos de ponta, equipe boa, seres humanos bons para se trabalhar com cinema. É claro que é caro se produzir cinema. Mas é possível fazer bons trabalhos. Temos se não me engano 12 curtas, fora alguns documentários que estão sendo produzidos agora’’. Se a gente tivesse estrutura, a gente faria pelo menos um longa e vários curtas em um ano. Já gravemos curta de 15 minutos em um dia, bem narrado e produzido, com começo, meio e fim, certinho. Gravamos dois dias, mas um não serviu e tivemos que gravar tudo de novo. Um que gravamos chamado, ‘’Lá em Heliópolis’’, demoramos um final de semana, com 7 sets (lugares) de filmagens, com a ajuda de uma van, como uma equipe de cinema mesmo. Isso é muito gostoso para todos que têm interesse de trabalhar com cinema, entendendo que todos são importante na equipe de uma produção. Se o trabalho sair bom, é bom para todos: atores, diretores, produtores, roteiristas, para quem tá começando e para quem tem interesse em cinema’’.

GaroaNews -  Hoje, com 14 anos de história, vocês criadores alcançaram o que imaginavam lá no começo? Ou mais do que imaginavam?

''Não, a gente nunca almejou isso. Hoje pensamos em ter um espaço grande, um espaço nosso, uma estrutura, para se profissionalizar como uma empresa, mesmo sendo uma Associação Cultural sem fins lucrativos. Se estruturar como empresa é ter cada setor em um lugar fazendo a sua parte para chegar no produto final. Vai começar pela faxineira até o produtor, no produto final, na exibição. Uma estrutura mecânica, cada um fazendo a sua parte. Por que, por exemplo, nós estamos filmando, aí chega aqui, temos que limpar.  Então tem que ter uma pessoa para limpar, zelar, abrir, fechar, outro para passar o filme. A gente trabalha o dia todo produzindo, chegando a noite, cansados, ainda temos que fazer a exibição. Então tem que ficar cada um no seu lugar. Eu não falo empresa para ganhar dinheiro, mas sistema de trabalhar, ser profissional, e na hora que tivermos uma estrutura profissional, não sei não, mas para segurar nós na área de cinema vai ser um pouquinho complicado! Ninguém tem estudo, aprendemos na prática, mas vieram profissionais dar aula de edição, de câmera, no começo. Quando eu fiquei sozinho, criei a oficina de cinema para virem pessoas e depois somarem comigo. Hoje temos uma espinha dorsal, mas o que adianta isso se não temos uma estrutura para essa espinha dorsal. Se conseguirmos estrutura para fazer cinema, aí vamos conversar com o pessoal sobre o que é fazer cinema. Cinema é fantástico, lindo! Mas chega uma hora que vamos ficando velho e cansado, então tem que pensar o seguinte: tem que ter pessoas que estão aprendendo para ensinar para outras pessoas e nunca mais parar. Os que vêm depois têm ser melhor que nós e assim por diante. Não pode parar! Se não se passar o bastão, não vai ter como dizer com quem aprendeu. Se eu parar com o Cine favela agora, vai apagar-se uma história de 12 anos. Com uma estrutura boa eu queria poder dizer: ''gente agora vocês tocam que eu estou cansado''. Por enquanto não dá pra fazer isso, mas eu já venho pensando. Eu preciso descansar! Eu trabalho na rua o dia todo, andando uns bons quilômetros por dia.  Mas eu não tenho outra escolha. Quem sabe uma hora não fazemos um filme como o Mel Gibson fez lá, com pouco dinheiro e que estourou nas bilheterias''.

GaroaNews -  Quais os planos para o futuro do Cine Favela? É possível a expansão do projeto para outras comunidades?

''Já pensamos em expandir e em criar mais em Heliópolis, fazer um triângulo, mas isso a gente precisa de estrutura. Se a gente tivesse isso, nasceriam cineastas até debaixo dos tocos com a gente. É o que gostamos de fazer. Adoramos cinema, cultura, trabalhar com a comunidade. E tem outra, se um dia fecharmos, não vamos parar, está no dna. Vai ser sempre assim''.

GaroaNews -  Como sentem-se, sabendo que são responsáveis por tirar muitas crianças e jovens do mau caminho? Isso acontece, certo? Nos conte.

''Isso é muito bom. Acho que um projeto como o nosso tem que ser justamente com esse intuito, de transformar pessoas simples em cidadãos importantes, dando uma visão de futuro para eles e mostrando um horizonte para que possam amanhã perpetuar uma carreira bacana. A gente vê quando os pais nos falam que gostam dos filhos aqui, por que não ficam na rua. Eu vejo a menina que começou aqui, indo para a Itália, sendo campeã. Vejo o boxe, que vai voltar, com o André Negão que tem 18 anos de boxe. Então, um pouquinho que você faz para somar vai ser bom para todos no lugar em que a gente vive e habita. Temos que tentar melhor o espaço onde vivemos e colocamos os pés todos os dias, agradecendo sempre a Deus por ter nos colocado nessa terra abençoada e ter a oportunidade de fazer alguma coisa em prol da Comunidade. É legal quando saímos na Comunidade e temos o reconhecimento e a admiração deles''.

GaroaNews -  Na sua visão, qual a contribuição social e cultural do Cine favela para os moradores da Comunidade do Heliópolis?

''O Cine favela não contribuiu social, cultural e esportivamente só para a nossa Comunidade, mas para o mundo todo, principalmente nas periferias. Vemos hoje periferias fazendo o mesmo que fazemos. O Rio de Janeiro pede para levarmos esse trabalho para lá, mas não temos condições para isso. Rio Grande da Serra também pede para irmos para lá. Então, nos tornamos pioneiros nesse tipo de projeto''.

GaroaNews - Como vocês vêem o quadro do cinema nacional atualmente? Está em um bom nível ou ainda perde muito para a indústria estrangeira?

''O Brasileiro foi habituado a assitir filme internacional. As vezes a pessoa assiste um filme e não tem a sensibilidade de analisar o conteúdo do filme, a história que está passando ao cidadão. Ele quer ver um filme de tiro, porrada e pancada. Qual foi o último filme romântico que você viu passar em uma tela de televisão? Nenhum não é? Nosso cinema nacional vinha crescendo muito e em 89 o Collor cortou o cinema pela raiz e os estrangeiros viram isso e exploraram o nosso mercado. Talvez precise sim um pouco de criatividade. O ''Avatar'' não existe, o cara criou uma históra fantástica! Em ''Senhor dos anéis'' não existe aquele anel. Uma boa história, vira um bom filme. Só tem uma história que não foi contada ainda da selva, quem sabe um dia alguém vai contar essa lenda. Quem sabe um dia a gente pode escrever ela e transformar em um bom filme. E eu não vejo o cinema nacional tão atrás do cinema internacional. Nasceram filmes bons aqui, como ''Tropa de Elite''. Eu queria que ele tivesse continuidade com essa qualidade. ''Cidade de Deus'', ''Tapete vermelho'', ''O Alto da compadecida''. Acho que ainda vai melhorar, pois tem muitos atores e diretores brasileiros estudando fora e vão vir com uma bagagem diferente, mas isso vai levar um bom tempo. E outra, se você chegar nas salas de cinema e tentar dividir espaço com os filmes estrangeiros, não vai ninguém''.

Estudando Jornalismo na Uninove. Cinema, esportes, viagens e comunicação me fascinam. Comprometido em realizar o melhor trabalho possível. Disposto a vivenciar o que me está reservado nesse louco mundão e ciente de que na vida somos apenas aprendizes. Quanto mais aprendemos, mais temos o que estudar.

"Você viveu, aprendeu e se tornou melhor"

Gervásio Henrique

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