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A descrença na política não pode ser pretexto para mudanças antidemocráticas

Por Equipe Garoa News
27/11/2017  08:30  

Traçar uma linha cronológica sabendo que isso seria o mínimo para explicar, talvez entender, a motivação para invencionices que propagam, hoje, a alteração do sistema político é o caminho menos sinuoso para o debate. Mesmo sendo algumas alternativas à revelia do regime democrático, a descrença popular na política e suas consequências como ameaça à democracia é princípio para a discussão e, mais do nunca, exige análise aprofundada.

Ao determinar a ordem cronológica dos governos democráticos brasileiros e o uso de instrumentos que permitiram, com auxílio da intensa movimentação popular, mudanças significativas na administração do País, a história mostra como reflexo de pouco menos de 30 anos da “Nova República” a descrença na política. Mesmo lutando, a opinião pública parece ter perdido a conversão daquele que parecia ser o início de um futuro almejado, o regime democrático assegurado por uma Constituição abrangente, em um país em que a politicagem é imperativa, dita os caminhos.

O eleitorado brasileiro que foi às urnas e usou pela primeira vez o instrumento democrático do voto, já no pós-regime militar, em 1989, não imaginava que a era Collor encerraria como governo Itamar e que o segundo presidente da “Nova República” seria outro Fernando e que este, formado em sociologia, compreenderia com tanta facilidade o jogo político que traria para o seu lado um “engavetador” de denúncias e uma legião de parlamentares que o defenderiam nas tribunas do Legislativo.

O mesmo eleitorado não poderia saber que o primeiro presidente de origem popular, muito pelo seu passado como sindicalista e referência para movimentos sociais organizados, seria eleito em 2003 e daria ao País destaque e visibilidade no cenário mundial, não mais como nação submissa ou mero ponto de extração de matérias primas. Aquele mesmo eleitorado, o primeiro pós-regime militar, não sabia que o mesmo instrumento do voto levaria uma mulher à administração do País em 2010. E foi neste período que, curiosamente, a versão século XXI das convulsões populares, insatisfeita com o modus operandi da politicagem impregnada nas instituições, retornou às ruas no “despertar” do “gigante” que, em princípio, abraçou um movimento pela gratuidade no transporte coletivo e em seguida, com a difusão de pautas e apropriação do movimento por grupos organizados, degringolou em tempos conturbados.

Com o “gigante” acordado e nas ruas, a democracia mostrou-se estremecida e o debate político, que nem mesmo durante governos ditos progressistas foi intensificado, evidenciou-se frágil, muito por conta da imaturidade do regime democrático. A fragilidade perfeitamente aplicável à metáfora do engatinhar de uma criança fez - e ainda faz - com que a massa, responsável outrora na frente da luta por um regime democrático, comece a considerar alternativas que atingem diretamente a mesma ordem democrática. Ela começa a propor mudanças que não são bem mudanças. São “pontos de restauração”, aqueles considerados apenas porque em algum momento da história passou uma ilusória normalidade no comando das instituições. Como o, cada vez mais frequente, clamor por uma suposta intervenção, a militar, aquela que desconsidera tudo que não esteja dentro dos limites dos quartéis.  

Enquanto de um lado há movimentos que pouco importam-se em carregar faixas, cartazes e contratar caminhões de som para difundir estórias – com “e” mesmo- sobre o período em que o País esteve sob a tutela dos generais, um outro lado já vislumbra introduzir características deste mesmo período por meio do voto, símbolo maior do regime democrático, com um candidato fardado que, de acordo com algumas pesquisas de intenção de voto, aparece bem colocado, em segundo lugar, atrás apenas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado da Justiça e com a candidatura ameaçada.  

A aceitação de candidatos, pelo regime democrático, que não mostram-se tão afeitos ao mesmo regime democrático e que, se preciso, revogarão aspectos democráticos, para os mais simplistas  recaí sobre uma suposta “descrença política”. Por sua vez, essa descrença política, que parece ser algo incontrolável, pertencente apenas à sociedade civil e consequência, única e exclusivamente, dos ditos “escândalos de corrupção”, sofre de forte influência das operações de investigação e a maneira que elas chegam através da grande mídia. Sincronizadas para cumprirem o papel de “cortinas de fumaça” para os desmandos de um governo impopular e mesmo com nova roupagem, sendo o mais famoso de seus figurinos o de “Lava-Jato”, estas operações e o espaço, custoso, que elas ocupam na atual imprensa deixa uma, no popular, “pulga atrás da orelha”, pela seletividade nas investigações e condenações.

No país em que tudo está contaminado pelo vírus da “corrupção”, as operações e a mídia pouco comentam de esquemas envolvendo o sistema financeiro e, agora, envolvendo a mesma mídia responsável por repassar a informação. Aliás, a informação da vez – como desde que a “versão século XXI das convulsões populares”, citada no 4º parágrafo deste artigo, foi surrupiada por movimentos com ideais definidos – é sempre a mesma. Todas levam ao partido político, e seus ideais, que cometeram o mesmo erro de outros - a tal corrupção, combustível para a descrença política -, mas que para as elites, donas da mídia e parceiras do custoso Judiciário brasileiro, errou mesmo em definir novos horizontes para o País.

A instalação de “currais”, por parte da mídia, que condena o público à mesmice, num perpétuo, “bater na mesma tecla”, faz com que parte da sociedade recorra a uma “consciência conservadora” ou até mesmo ultraconservadora, ou seja, mais radical. Imaginando que a solução seja milagrosa, um nome mítico a salvar-nos todos da “desordem” e da corrupção. Ou mesmo intervenções e regimes totalitários. Nota-se aí que este fenômeno nada mais representa que o ato de apoiar-se como sempre em muletas, seja na muleta do “não gostar” de política e com isso entregar os destinos nas mãos dos profissionais da política sem que se avalie minuciosamente as propostas dos candidatos. Seja como sociedade oriunda de uma colônia de exploração, buscando sempre que outros intervenham e solucionem as questões inerentes ao País, conscientemente ou não, delegando seus destinos nas mãos de quem claramente tem encarado a política como uma profissão onde se serve a si mesmo mais do ao povo, uma subversão ao real sentido da política.

A saída para o atual estado de turbulência em que se encontra o País é muito difícil de ser equacionada. Infelizmente, como sociedade, estamos dando passos na contramão da solução. Muito depende, claro, do Poder Público, em oferecer educação de qualidade que incentive o jovem a pensar como um cidadão efetivo capaz de decidir o seu destino. E nesse particular não há muitas perspectivas de uma mudanças a curto prazo. Há uma deterioração do sistema público de ensino, e isso parece ser estrutural, própria dos representantes do Estado. Esse uso da educação como mecanismo de distanciamento entre a população e a política através da desinformação - e não o contrário - favorece o jogo político de que os ditos “representantes do povo” se alimentam.

Mas uma coisa está em nossas mãos. Larguemos a muleta da inércia, do “não gostar” e lancemos à luta. Luta contra o atual estado de coisas que não, necessariamente, está atrelada alteração ou não do sistema político. Mas ao sucateamento de áreas essenciais como educação, que entendemos – quase unanimemente - ser o único caminho para o desenvolvimento – ou surgimento – de uma Nação.  

Dar à educação a importância que ela merece, como sendo o alicerce necessário para uma sociedade igualitária e desenvolvida, e exercer a cidadania de forma analítica e efetiva, é o meio de transformação do cenário político no Brasil.

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